Flávio Bolsonaro repete o pai e cita dados falsos sobre urnas eletrônicas em evento com embaixadores

Flávio Bolsonaro repete o pai e cita dados falsos sobre urnas eletrônicas em evento com embaixadores
Flávio Bolsonaro fez declarações durante ciclo de encontros voltado ao corpo diplomático internacional Foto: Raul Spinassé/Divulgação

 

BRASÍLIA – O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) atacou as urnas eletrônicas em um evento com dezenas de diplomatas estrangeiros nesta terça-feira (21/7), com dados já desmentidos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). 

 

No discurso a representantes de diversos países, o pré-candidato à Presidência da República repetiu seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que, durante o período eleitoral de 2022, fez alegações falsas contra as urnas em encontro com embaixadores em Brasília.

 

Por causa do episódio, o TSE tornou o ex-presidente inelegível por oito anos. Depois, ele foi condenado a 27 anos de prisão, por diversos crimes,  no processo da trama golpista. Após a repercussão de sua fala, Flávio negou, em nota, ter colocado em dúvida o processo eleitoral brasileiro.

Relatório da CIA e empresa venezuelana

No evento de terça, promovido pela agência Novo Selo Comunicação pelo site “The Brazilian Report”, diante de uma plateia estrangeira, Flávio afirmou que as urnas eletrônicas brasileiras têm a mesma origem das urnas da empresa venezuelana Smartmatic, o que é falso.

Ele afirmou que a CIA, a agência de inteligência dos Estados Unidos, apontou que a Smartmatic manipulou as eleições venezuelanas de 2010. Em seguida, Fávio pediu aos diplomatas que enviem o maior número de observadores estrangeiros possíveis para a eleição de 2026.

“Há poucos dias, por coincidência, há uma denúncia por parte do governo americano de suspeitas de fraudes em processo eleitoral eletrônico, em especial na Venezuela”, disse Flávio.

“Uma das suspeitas é que uma empresa chamada Smartmatic, de origem venezuelana, é que tenha uma programação para alteração das votações naquele país”, que acrescentou.

“Não vou entrar em mais detalhes, mas só para deixar registrado que muitas dessas máquinas que são utilizadas nas eleições brasileiras têm a mesma origem dessa empresa venezuelana”, prosseguiu.

“O pedido que eu faço a todos aqui, não estou questionando o sistema de votação brasileiro, mas que todos os países possam mandar a maior quantidade de observadores possíveis para as nossas eleições, como sempre fazem, e também pessoas que tenham conhecimento sobre essa tecnologia e [sobre] como o Brasil pode dar eleições mais seguras e transparentes”, completou o presidenciável.

Flávio ainda falou que o pai está inelegível e preso por ter manifestado “uma preocupação com a transparência e a segurança do nosso sistema eleitoral” e pediu para que os diplomatas “levassem esse cenário de preocupação para os seus países”.

“Jair Bolsonaro está inelegível depois de uma reunião com embaixadores. Alguém que tinha uma preocupação com a transparência e segurança do nosso sistema eleitoral e apenas manifestava suas preocupações para que os embaixadores levassem esse cenário de preocupação a seus países.”

Jair Bolsonaro foi condenado pelo TSE em 2023 por abuso de poder e uso indevido dos meios de comunicação. Ele ficou inelegível. O processo tratou da reunião do então presidente  no Palácio da Alvorada, a menos de três meses da eleição de 2022. 

Na ocasião, ele fez afirmações falsas e distorcidas sobre o processo eleitoral, alegando estar se baseando em dados oficiais, além de buscar desacreditar ministros do TSE. Tudo foi filmado e transmitido pela TV Brasil, canal estatal.

“Essa é uma reunião bem diferente para mim porque meu pai está preso e uma das razões foi uma reunião com embaixadores de diversos países denunciando alguns pontos da nossa eleição”, disse Flávio em inglês. O pai dele está preso para cumprir a pena imposta pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em função da tentativa de golpe de Estado e outros crimes. 

Flávio corrigiu a fala, dizendo que seu pai, na verdade, está inelegível por conta da mencionada reunião com embaixadores em 2022.

Smartmatic nunca forneceu urnas ao TSE

A Smartmatic participou de uma licitação para fornecer urnas ao TSE em 2020, mas perdeu a disputa para a Positivo. Segundo a Corte, a empresa venezuelana firmou contratos apenas para suporte técnico para conexão de dados.

Ou seja, a Smartmatic nunca vendeu urnas ou softwares usados em urnas para o Brasil. A empresa venezuelana apenas forneceu serviços, como treinamento de pessoas para fazer suporte técnico e operacional para as urnas. Vale lembrar que as urnas não são ligadas à internet.

“São falsas as mensagens que circulam nas redes sociais segundo as quais a empresa Smartmatic fornece urnas eletrônicas ou softwares utilizados em urnas no Brasil. Todo o projeto da urna eletrônica brasileira e do sistema eletrônico de votação foi concebido e é gerido inteiramente pela Justiça Eleitoral do país”, informou o TSE já em 2020.

Flávio fala em perseguição contra o pai

Além de desacreditar as urnas, Flávio afirmou que o Brasil não tem segurança jurídica, o que afastaria os investimentos estrangeiros, mencionando como exemplo o que vê como perseguição do Supremo Tribunal Federal (STF) ao seu pai.

Ele afirmou que Jair Bolsonaro, “mesmo sem nenhuma prova, foi condenado pelos seus próprios inimigos a 27 anos de prisão, sob acusação de tentativa de golpe de Estado, quando ele já não estava mais no governo e quando ele tinha feito toda a transição pacífica para o governo seguinte”.

“Uma das razões de não ser o presidente Jair Bolsonaro concorrendo neste ano às eleições é porque ele está preso após ser vítima de uma grande farsa por parte de alguns no poder Judiciário”, disse. 

Jair Bolsonaro pai não reconheceu a derrota nas urnas nem pediu para que apoiadores desarmassem os acampamentos em frente às unidades do Exército pedindo intervenção militar e até prisão do então presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT). 

Além dos acampamentos pelo país, Brasília foi cenário de episódios violentos após a derrota de Bolsonaro, contra a posse de Lula. Apoiadores do ex-presidente promoveram uma quebradeira na área central de Brasília após tentarem invadir a sede da Polícia Federal (PF) no dia da diplomação de Lula. 

 

À véspera do Natal de 2022, um grupo colocou uma bomba em um caminhão na tentativa de explodir parte do aeroporto da capital e levar a uma intervenção militar. E em 8 de janeiro de 2023, houve a invasão e depredação das sedes dos Três Poderes.

Em seu discurso, Flávio também criticou a PF. Afirmou que a corporação está a serviço de Lula. “Hoje nós temos uma Polícia Federal brasileira que parte dela está aparelhada para continuar perseguições políticas aos opositores de Lula”, disse.

“As instituições estão muito aparelhadas para proteger políticos que sejam próximos ao atual governo e perseguir políticos que sejam de oposição, mesmo que não tenham cometido crime algum. Então, num possível governo de Flávio Bolsonaro, as instituições vão voltar a investigar criminosos corruptos e não serem usadas para perseguir opositores políticos”, afirmou.

Senador divulga notas mas não corrige falas

Flávio participou de uma rodada com presidenciáveis, intitulada “Debatendo o Brasil”. O encontro de terça reuniu aproximadamente 80 pessoas, incluindo cerca de 20 embaixadores, além de outros representantes de mais de 40 países e organismos internacionais.

Na plateia havia representantes dos Estados Unidos, China, Argentina, Alemanha, Reino Unido, Espanha, Áustria, Irlanda, Japão, Israel, Canadá, México, Argentina, Paraguai e Ucrânia, além da União Europeia e da Liga dos Estados Árabes.

Diante da repercussão das declarações de Flávio, a assessoria do senador divulgou uma nota afirmando que ele “não coloca em dúvida o processo eleitoral brasileiro”. 

“O convite para a presença de observadores internacionais segue uma prática adotada em diversas democracias e reforça a transparência no sistema eleitoral”, diz trecho do comunicado.

A campanha do senador divulgou outra nota, afirmando que “não é verdade” que ele tenha questionado a integridade do sistema eleitoral e que ele se limitou a relatar fatos públicos, como o relatório da CIA.

“Em sua fala, que é brevíssima neste ponto, o pré-candidato Flávio Bolsonaro afirma expressamente que ‘não está questionando o sistema de votação brasileiro’”, diz a nota.

Ela também diz que Flávio reafirma “sua integral confiança no sistema eleitoral brasileiro e sua crença irrestrita de que as missões de observação internacional devem ser fortemente estimuladas”.